Thatá na Babilônia











Já escrevi sobre o carnaval muitas vezes. Mas, meu carnaval é um só. Carnaval é, em geral, um trauma alegre dentro de nós, a vivência de uma grande alegria ou uma grande inibição. Meu caso era mais de medo daquela
sexualidade em flor nos bailes infantis, eu olhando sozinho, um triste cowboy ou um pirata ou um legionário com medo de dançar com as odaliscas ou havaianas. Mas, como dizia Nelson Rodrigues, “que seria de mim sem minhas
repetições?” Por isso, repito aqui algumas coisas que percebi nas mudanças do carnaval, desde o tempo em que o verão começava no Rio, sob o canto das cigarras, flores vermelhas dos flamboyants e marchinhas tocando no rádio desde dezembro.Carnaval para mim era o cheiro. Até hoje, quando penso nos carnavais da minha infância, lembro do cheiro do lança-perfume. O lança-perfume era tudo. Havia umas em vidro, frágeis como ampolas, mas o belo símbolo do
carnaval era o Rodouro Metálico. Até hoje me irrita pensar que baniram esta linda arma de alegria. Era um tubo dourado, grosso, que ejetava um fino jato de éter, gelando as costas nuas das adolescentes que se torciam em risos trêmulos. O perfume flutuava pelas avenidas e crescia como uma aragem, uma nuvem de euforia salpicada de confetes coloridos e rasgada por serpentinas. Carnaval sempre foi sexo – tudo bem – mas, antes, havia uma doce inibição no ar, havia a suave caretice, uma moralidade mínima, havia cortesia, havia clima de amor nos bailes e não a desbragada orgia sem limites. Hoje há os corpos malhados, excessivamente nus, montanhas de bundas competindo em falsa liberdade, pois ninguém tem tanta tesão assim, ninguém é tão livre assim.

O carnaval de hoje parece uma calamidade pública, disputada pelo narcisismo oportunista dos burgueses e burguesas se despindo para aparecer na TV. O carnaval foi deixando de ser dos “foliões” para ser um espetáculo para os outros; o carnaval deixou de ser vivido para ser olhado.

Para descobrir um carnaval mais puro, há que ir aos detritos que sobraram dos anos 40 e 50, assim como olhamos velhas fachadas entre prédios modernosos. Não há mais musicas de carnaval. Notaram? Pra quê? Só há os corpos, as multidões enlouquecidas sem cabeça. Quando passam as baterias das escolas, quando uns garotos sambam no pé, ainda vislumbramos alguns traços de beleza autêntica. Dirão que sou um estraga-prazeres, mas tenho vontade de chorar quando lembro um Brasil que estava seguindo seu rumo próprio, feito de toscos sambinhas, de permanências coloniais, de equívocos… e que de repente se viu jogado num progresso vertiginoso que não era o seu. A explicação sociológica dos pobres querendo ser reis, a explicação de que desejam exorcizar o poder dos ricos é correta, mas não esgota o assunto, creio, porque há também as multidões de excluídos que pulam nas ruas do Rio, na Bahia, no Recife.

Os blocos de “sujos”, esses sim, com uma alegria selvagem e sem frescuras, inconscientemente velam pelos carnavais do passado, por uma inocência perdida.

Há neles quase que o desejo de morrer esmagados, numa fervente multidão-formigueiro onde todos se sintam um grande “UM”. Há, com os foliões de rua, uma espécie de comício dançante que leva ao esquecimento das dores
do ano. Nos blocos dos anjos de cara suja, dos travestis escrotos, dos vagabundos, há uma forma de auto-caricatura que denuncia a mixaria da vida que vivem; eles se mostram como provas de um crime que não cometeram. Há, ali, o desejo de escrachar o luxo das escolas, os bailes dos ricos, fazendo um carnaval da miséria, na melhor tradição da arte grotesca, des-sacralizando as obrigações da virtude e da obediência.

Mas, o carnaval é nossa marca registrada. Não só os três dias de folia, mas um clima geral que rola o ano todo no país, feito de três raças misturadas, de uma esperança de liberdade e de alegria.

Nosso carnaval busca uma civilização com uma animalidade pulsante, sem mal-estar e mostra que há uma espécie de “orientalidade africana” em nossa terra, questionando o pensamento único do bom senso anglo-saxão. Brasileiro pode não ter espírito público, “consciência” social; mas, certamente, tem uma Inconsciência à flor da pele, ao contrário dos países que pagam um alto preço pela Razão triste, por uma felicidade comedida. Existe uma clara diferença de sexualidade entre nós e os turistas que contemplam de boca aberta o descaramento de nossos rebolados. Eles têm o “rock”, sem dúvida; mas o “rock” fala de uma revolta contra o sistema e não tem a moleza feminina do nosso carnaval. O “rock” é guerra; o carnaval é luxo e volúpia. Nós só pensamos em ficar nus, como se quiséssemos voltar para trás, para uma grande tribo vermelha ou mulata. Há uma “pureza” nessa explosão de carne que não se explica, há um desejo de “indianização”, há um desejo de fundar um outro país, avesso a autoritarismos, avesso à tragédia da pobreza; inconscientemente, queremos uma sociedade organizada, mas feminina; justa, mas alegre.

Onde existem essas montanhas de carne, de corpos se jogando uns contra outros, onde podemos ver essa busca louca por um orgasmo utópico, essa fome de amar?

Todas as metáforas do carnaval são ligadas à idéia de abundância, de fecundidade, tudo lembra um grande prazer quer nos salvará um dia, contra um futuro terrível de racionalidade e paranóia. O carnaval brasileiro tem a
utopia de transformar a cultura em natureza. Nosso “fim da história” seria uma grande suruba delirante.

Arnaldo Jabor
Fonte: http://www.geocities.com/cronistaarnaldo/index2.html



{Janeiro 14, 2008}   O Amor deixa muito a desejar
Fui ver o lindíssimo filme do Pedro Almodóvar, o Fale com Ela, e saí pensando num conto da Carson McCullers, em que um homem conta que, antes de amar de novo uma mulher, ele estava aprendendo a amar as pedras, as árvores, as nuvens… Nesse grande filme de Almodóvar, vemos amores raros, feitos de entrega, feitos de compaixão, como uma “doação ilimitada a uma completa ingratidão”, como escreveu Drummond, aliás, o poeta do amor impossível, que é o único e verdadeiro amor.

A vitória do Lula também foi uma fome de amor política contra a era da técnica racionalista. Seu governo pode virar até um crime passional ou um folhetim melodramático, mas, hoje, é um grande desejo de happy end para todo o povo. Por isso, pergunto: onde anda o amor? Até isso o mercado estragou?
Sim. O amor já teve um toque sagrado, a magia de uma inutilidade deliciosa, já foi um desafio ao dia-a-dia que nos tirava da vida comum.

Hoje, o amor, como tudo, está perdendo a transcendência. Não existe mais o amante definhando de solidão, nem Romeus nem Julietas, nem pactos de morte, não existe mais o amor nos levando para uma galáxia remota, não existe mais a simbiose que nos transportava a uma eternidade semi-religiosa. O amor tinha uma fome de bondade, de compaixão pelo outro, de proteção à pessoa amada. Isso está acabando. O amor já foi analisado por todas as ciências, a psicanálise mapeou as loucuras que estão sob sua poética, o ritmo do tempo atual acelerou o amor, o dinheiro contabilizou o amor, matando seu mistério impalpável. Hoje, temos controle, sabemos por que “amamos”, temos medo de nos perder no amor e fracassar no mercado. O amor pode atrapalhar a produção.

Por isso, o filme de Almodóvar é tão belo e oportuno. Temos de fazer filmes assim, cheios de amor, sem efeitos, sem denúncias. Se eu, um dia, filmar de novo, será para celebrar o silêncio dos amantes ou a beleza do inútil. O amor perdeu a gratuidade, as pessoas “amam” por desejo de ter um amor que não sentem mais. O amor não tem mais porto, não tem onde ancorar, não tem mais a família nuclear para se abrigar, não tem mais a utilidade do sacrifício pelo “outro”. O amor ficou pelas ruas, em busca de objeto, esfarrapado, sem rumo. Não temos mais músicas românticas, nem o lento perder-se dentro de “olhos de ressaca”, nem nas “pernas de Fulana”, nem temos as bocas beijadas por amantes “tutti tremanti”, nem o formicida com guaraná. Não se diz mais: “Deus sabe quanto amei!…”, mas “Deus nem sabe quantos (as) amei…”

A publicidade devastou o amor, falando na “gasolina que eu amo” (“Shell que j’aime”), no sabonete que faz amar, na cerveja que seduz. Há uma obscenidade flutuando no ar o tempo todo, uma propaganda difusa do sexo impossível de cumprir. Como comer todas as moças da lingerie e do xampu, como atingir um orgasmo pleno e definitivo? A sexualidade total, por si só, levaria a uma assexualização desértica. A sexualidade é finita, não há mais o que inventar. Já o amor, não… O amor vive da incompletude e esse vazio justifica a poesia da entrega. Ser impossível é sua grande beleza. Claro que o amor é também feito de egoísmos, de narcisismos mas, ainda assim, ele busca uma grandeza – mesmo no crime de amor há um terrível sonho de plenitude. Amar exige coragem e hoje somos todos covardes.

Amor e sexo. Mas, hoje o mercado exige a satisfação total no amor ou o dinheiro de volta.

Como isso é impossível, deriva para o sexo ou para a sedução. O amor passa a buscar não mais uma entrega, mas um domínio. O amor vira um objeto de consumo, fast-love, com obsolescência programada para durar pouco. O amor deixa muito a desejar. Em geral, o amor existe hoje como uma espécie de adoçante para justificar, legitimar uma tesão ou uma conquista. Os amores duram três edições de Caras. Os casais se permutam num troca-troca rápido e quantitativo. As próprias mulheres estão virando dom-juans. Vejam o périplo de jovens atrizes que vão comendo, um por um, os modelos que surgem nas revistas, elas, que deviam se manter damas inatingíveis para pálidos quixotes românticos.

Estamos com fome de amor cortês, num mundo em que tudo perdeu aura. O terrível bombardeio que a cultura americana está fazendo nos sentimentos é invisível, mas é pior que as bombas contra o Iraque. A cultura americana está criando um desencantamento insuportável na vida social. Tudo é tolerável, num arrasamento de mistérios. Vejam a arte tratada como algo desnecessário, sem lugar, sem uso, vejam as mulheres amontoadas na internet, nuas, com números – basta clicar e chamar. Estamos com fome de infinito em tudo, na vida, na política, no sexo. Por isso, o filme de Almodóvar, cheio de compaixão sussurrada, apoiada na trêmula beleza dos balés de Pina Bausch e no Caetano cantando um pranto dolorido, parece um segredo religioso, uma saudade inexplicável de alguma coisa que existe aquém, antes da vida.

Nos anos 60, liberdade sexual foi uma questão política. Hoje, podemos tudo, podemos casar até com jacarés ou macacas, sem escândalos, desde que não prejudique a produção. Mas, o que invisivelmente está virando uma nova necessidade política é o amor e seus subprodutos: compaixão, paz, justiça.

Aposto que virá aí um novo “desbunde”, um novo movimento hippie, sem utilidade, mas sem melancolia autodestrutiva, vêm aí marchas pelo amor, porque ninguém está agüentando mais somente “utilidade” e “desempenho”, poder e sucesso. Estamos virando coisas. Precisamos aprender a amar de novo as pedras, as árvores, as nuvens, até chegarmos a nós mesmos… E acho que isso vai surgir na América, como foi nos anos 60 – a luta pelos direitos civis será agora a luta pela beleza da inutilidade.

Arnaldo Jabor



Outro dia escrevi um artigo sobre o amor. Depois, escrevi outro sobre sexo.

Os dois artigos mexeram com a cabeça de pessoas que encontro na rua e que me agarram, dizendo: “Mas… afinal, o que é o amor?” E esperam, de olho muito aberto, uma resposta “profunda”. Sei apenas que há um amor mais comum, do dia-a-dia, que é nosso velho conhecido, um amor datado, um amor que muda com as décadas, o amor prático que rege o “eu te amo” ou “não te amo”. Eu, branco, classe média, brasileiro, já vi esse amor mudar muito. Quando eu era jovem, nos anos 60/70, o amor era um desejo romântico, um sonho político, contra o sistema, amor da liberdade, a busca de um “desregramento dos sentidos”. Depois, nos anos 80/90 foi ficando um amor de consumo, um amor de mercado, uma progressiva apropriação indébita do “outro”. O ritmo do tempo acelerou o amor, o dinheiro contabilizou o amor, matando seu mistério impalpável. Hoje, temos controle, sabemos por que “amamos”, temos medo de nos perder no amor e fracassar na produção. A cultura americana está criando um “desencantamento” insuportável na vida social. O amor é a recusa desse desencanto. O amor quer o encantamento que os bichos têm, naturalmente.
Por isso, permitam-me hoje ser um falso “profundo” (tratar só de política me mata…) e falar de outro amor, mais metafísico, mais seminal, que transcende as décadas, as modas. Esse amor é como uma demanda da natureza ou, melhor, do nosso exílio da natureza. É um amor quase como um órgão físico que foi perdido. Como escreveu o Ferreira Gullar outro dia, num genial poema publicado sobre a cor azul, que explica indiretamente o que tento falar: o amor é algo “feito um lampejo que surgiu no mundo/ essa cor/ essa mancha/ que a mim chegou/ de detrás de dezenas de milhares de manhãs/ e noites estreladas/ como um puído aceno humano/ mancha azul que carrego comigo como carrego meus cabelos ou uma lesão oculta onde ninguém sabe”.

Pois, senhores, esse amor existe dentro de nós como uma fome quase que “celular”. Não nasce nem morre das “condições históricas”; é um amor que está entranhado no DNA, no fundo da matéria. É uma pulsão inevitável, quase uma “lesão oculta” dos seres expulsos da natureza. Nós somos o único bicho “de fora”, estrangeiro. Os bichos têm esse amor, mas nem sabem.

(Estou sendo “filosófico”, mas… tudo bem… não perguntaram?) Esse amor bate em nós como os frêmitos primordiais das células do corpo e como as fusões nucleares das galáxias; esse amor cria em nós a sensação do Ser, que só é perceptível nos breves instantes em que entramos em compasso com o universo. Nosso amor é uma reprodução ampliada da cópula entre o espermatozóide e óvulo se interpenetrando. Por obra do amor, saímos do ventre e queremos voltar, queremos uma “reintegração de posse” de nossa origem celular, indo até a dança primitiva das moléculas. Somos grandes células que querem se re-unir, separados pelo sexo, que as dividiu. (“Sexo” vem de “secare” em latim: separar, cortar.) O amor cria momentos em que temos a sensação de que a “máquina do mundo” ou a máquina da vida se explica, em que tudo parece parar num arrepio, como uma lembrança remota. Como disse Artaud, o louco, sobre a arte (ou o amor) : “A arte não é a imitação da vida. A vida é que é a imitação de algo transcendental com que a arte nos põe em contato.” E a arte não é a linguagem do amor? E não falo aqui dos grandes momentos de paixão, dos grandes orgasmos, dos grande beijos – eles podem ser enganosos. Falo de brevíssimos instantes de felicidade sem motivo, de um mistério que subitamente parece revelado. Há, nesse amor, uma clara geometria entre o sentimento e a paisagem, como na poesia de Francis Ponge, quando o cabelo da amada se liga aos pinheiros da floresta ou quando o seu brilho ruivo se une com o sol entre os ramos das árvores ou entre as tranças da mulher amada e tudo parece decifrado. Mas, não se decifra nunca, como a poesia. Como disse alguém: a poesia é um desejo de retorno a uma língua primitiva. O amor também. Melhor dizendo: o amor é essa tentativa de atingir o impossível, se bem que o “impossível” é indesejado hoje em dia; só queremos o controlado, o lógico. O amor anda transgênico, geneticamente modificado, fast love.

Escrevi outro dia que “o amor vive da incompletude e esse vazio justifica a poesia da entrega. Ser impossível é sua grande beleza. Claro que o amor é também feito de egoísmos, de narcisismos mas, ainda assim, ele busca uma grandeza – mesmo no crime de amor há um terrível sonho de plenitude. Amar exige coragem e hoje somos todos covardes”.

Mas, o fundo e inexplicável amor acontece quando você “cessa”, por brevíssimos instantes. A possessividade cessa e, por segundos, ela fica compassiva. Deixamos o amado ser o que é e o outro é contemplado em sua total solidão. Vemos um gesto frágil, um cabelo molhado, um rosto dormindo, e isso desperta em nós uma espécie de “compaixão” pelo nosso desamparo.

Esperamos do amor essa sensação de eternidade. Queremos nos enganar e achar que haverá juventude para sempre, queremos que haja sentido para a vida, que o mistério da “falha” humana se revele, queremos esquecer, melhor, queremos “não-saber” que vamos morrer, como só os animais não sabem. O amor é uma ilusão sem a qual não podemos viver. Como os relâmpagos, o amor nos liga entre a Terra e o céu. Mas, como souberam os grandes poetas como Cabral e Donne, a plenitude do amor não nos faz virar “anjos”, não. O amor não é da ordem do céu, do espírito. O amor é uma demanda da terra, é o profundo desejo de vivermos sem linguagem, sem fala, como os animais em sua paz absoluta. Queremos atingir esse “absoluto”, que está na calma felicidade dos animais.

Arnaldo Jabor



{Janeiro 14, 2008}   O Amor atrapalha o sexo
Sábado, fui andar na praia em busca de inspiração para meu artigo de jornal.
Encontro duas amigas no calçadão do Leblon. “Teu artigo sobre amor deu o maior auê…” – me diz uma delas. “Aquele das mulheres raspadinhas também…

Aliás, que que você tem contra as mulheres que ‘barbeiam’ as partes?” – questiona a outra. “Nada… – respondo – acho lindo, mas não consigo deixar de ver ali nas ‘partes’ dessas moças um bigodinho sexy… não consigo evitar… Penso no bigodinho do Hitler, do Sarney – lembram um sarneyzinho vertical nas mmodelos nuas… Por isso, acho que vou escrever ainda sobre sexo…”

Uma delas (solteira e lírica) me diz: “Sexo e amor são a mesma coisa…” A outra (casada e prática) retruca: “Não são a mesma coisa não…” “Sim, não, sim, não” – nasceu a doce polêmica ali à beira-maar. Continuei meu cooper e deixei as duas lindas discutindo e bebendo água-de-coco. E resolvi escrever sobre essa antiga dualidade: sexo e amor. Comecei perguntando a amigos e amigas sua opinião. Ninguém sabe direito. As duas categorias se trepam, tendendo ou para a hipocrisia ou para o cinismo; ninguém sabe onde a galinha e onde o ovo. Percebo que os mais “sutis” defendem o amor, como algo “superior”. Para os mais práticos, sexo é a única coisa concreta.

Assim sendo, meto aqui minhas próprias colheres nesta sopa. O amor tem jardim, cerca, projeto. O sexo invade tudo. Sexo é contra a lei, no fundo de tudo. O amor depende de nosso desejo, é uma construção que criamos. Sexo não depende de nosso desejo; nosso desejo é que é tomado por ele. Ninguém se masturba por amor. Ninguém sofre sem tesão. O sexo é um desejo de apaziguar o amor. O amor é uma espécie de gratidão à posteriori pelos prazeres do sexo.

O amor vem depois. O sexo vem antes. No amor, perdemos a cabeça, deliberadamente. No sexo, a cabeça nos perde. O amor precisa do pensamento.

No sexo, o pensamento atrapalha; só as fantasias ajudam. O amor sonha com uma grande redenção. O sexo só pensa em proibições; não há fantasias permitidas. O amor é um desejo de atingir a plenitude. Sexo é o desejo de se satisfazer com a finitude.

O amor vive da impossibilidade sempre deslizante para a frente. O sexo é um desejo de acabar com a impossibilidade. O amor pode atrapalhar o sexo. Já o contrário não acontece. Existe amor com sexo, claro, mas nunca gozam juntos.

Amor é propriedade. Sexo é posse. Amor é a lei; sexo é invasão de domicílio.

Amor é o sonho por um romântico latifúndio; já o sexo é o MST. O amor é mais narcisista, mesmo quando fala em “doação”. Sexo é mais democrático, mesmo vivendo no egoísmo. Amor e sexo são como a palavra farmakon em grego: remédio ou veneno. Amor pode ser veneno ou remédio. Sexo também – tudo dependendo das posições adotadas.

Amor é um texto. Sexo é um esporte. Amor não exige a presença do “outro”; o sexo, no mínimo, precisa de uma “mãozinha”. Certos amores nem precisam de parceiro; florescem até mais sozinhos, na solidão e na loucura. Sexo, não – é mais realista. Nesse sentido, amor é uma busca de ilusão. Sexo é uma bruta vontade de verdade. Amor muitas vezes é uma masturbação. Sexo, não. O amor vem de dentro, o sexo vem de fora, o amor vem de nós. O sexo vem dos outros.

Não somos vítimas do amor; só do sexo. “O sexo é uma selva de epilépticos” (Nelson Rodrigues) ou “o amor, se não for eterno, não era amor” (NR). O amor inventou a alma, a eternidade, a linguagem, a moral. O sexo inventou a moral também do lado de fora de sua jaula, onde ele ruge.

O amor tem algo de ridículo, de patético, principalmente nas grandes paixões. O sexo é mais quieto, como um caubói – quando acaba a valentia, ele vem e come. Eles dizem: “Faça amor, não faça a guerra.” Sexo quer guerra. O ódio mata o amor, mas o ódio pode acender o sexo. Amor é egoísta; sexo é altruísta. O amor quer superar a morte. No sexo, a morte está ali, nas bocas… O amor fala muito. O sexo grita, geme, ruge, mas não se explica.

O sexo sempre existiu – das cavernas do paraíso até as saunas relax for men.

Por outro lado, o amor foi inventado pelos poetas provençais do século 12 e, depois, revitalizado pelo cinema americano da direita cristã. Amor é literatura. Sexo é cinema. Amor é prosa; sexo é poesia. Amor é mulher; sexo é homem – o casamento perfeito é do travesti consigo mesmo. O amor domado protege a produção, sexo selvagem é uma ameaça ao bom funcionamento do mercado. Por isso, a única maneira de controlá-lo é programá-lo, como faz a indústria das sacanagens. O mercado programa nossas fantasias. Não há “saunas relax” para o amor, onde o sujeito entre e se apaixone. No entanto, em todo bordel, finge-se um “amorzinho” para iniciar. O amor está virando um hors-d’oeuvre para o sexo.

O problema do amor é que dura muito, já o sexo dura pouco. Amor busca uma certa “grandeza”. O sexo sonha com as partes baixas. O perigo do sexo é que você pode se apaixonar. O perigo do amor é virar amizade. Com camisinha, há “sexo seguro”, mas não há camisinha para o amor.

O amor sonha com a pureza. Sexo precisa do pecado. Amor é a lei. Sexo é a transgressão. Amor é o sonho dos solteiros. Sexo o sonho dos casados. A (O) amante sacia nossa fome de verdade, mata nossa nostalgia da animalidade.

Sexo precisa da novidade, da surpresa. O grande amor só se sente no ciúme (Proust). O grande sexo sente-se como uma tomada de poder. Amor é de direita. Sexo de esquerda (ou não, dependendo do momento político.

Atualmente, sexo é de direita. Nos anos 60, era o contrário. Sexo era revolucionário e o amor era careta). E, por aí, vamos. Sexo e amor tentam mesmo é nos afastar da morte. Ou não; sei lá… e-mails de quem souber para a redação.

Arnaldo Jabor



etc.