Thatá na Babilônia











Tanto a semente intacta, como aquela que está rompendo sua casca tem as mesmas propriedades.
Entretanto, só a que está rompendo sua casca é capaz de lançar-se na aventura da vida.

Esta aventura requer uma ousadia única: descobrir que não se pode viver através da experiência dos outros e estar disposto a entregar-se.
Não se pode pegar os olhos de um, os ouvidos de outro, para saber de antemão o que vai acontecer, cada existência é diferente da outra.

Seja o que for que me espera, eu desejo estar com o coração aberto para receber.
Que eu não tenha medo de colocar o meu braço no ombro de alguém, até que ele seja cortado.
Que eu não tema fazer algo que ninguém fez antes, até que seja ferido.
Deixe-me ser tolo hoje, porque a tolice é tudo que eu tenho para dar esta manhã; eu posso ser repreendido por isso, mas não tem importância.
Amanhã quem sabe, eu serei menos tolo.



{Julho 17, 2007}   Amizade – Gibran Khalil
“E um adolescente disse: “Fala-nos da Amizade.” E ele respondeu, dizendo: “Vosso amigo, é a satisfação de vossas necessidades.
Ele é o campo que semeias com carinho e ceifais com agradecimento.
E vossa mesa e vossa lareira.
Pois ides a ele com vossa fome e o procurais em busca da paz. Quando vosso amigo manifesta seu pensamento, não temeis o “não” de vossa própria opinião, nem prendeis o sim. E quando ele se cala, vosso coração continua a ouvir o seu coração,
Porque na amizade, todos os desejos, ideais, esperanças, nascem e são partilhados sem palavras, numa alegria silenciosa.Quando vos separeis de vosso amigo, não vos aflijais
Pois o que vós ameis nele pode tornar-se mais claro na sua ausência,
Como para o alpinista a montanha aparece mais clara, vista da planície.E que não haja outra finalidade na amizade a não ser o amadurecimento do espírito,
pois o amor que procura outra coisa a não ser a revelação de seu próprio mistério não é o amor, mas uma rede armada, e somente o inaproveitável é nela apanhado.E que o melhor de vós próprio seja para o vosso amigo.Se ele deve conhecer o fluxo de vossa maré, que conheça também o seu refluxo
pois que achais seja vosso amigo
para que o procureis somente a fim de matar o tempo?Procurai-o sempre com horas para viver.
Pois o papel do amigo é o de encher vossa necessidade, e não vosso vazio.E na doçura da amizade,
que haja risos e o partilhar dos prazeres.Pois no orvalho de pequenas coisas,
o coração encontra sua manhã e se sente refrescado.”


Adotarei o amor por companheiro e o escutarei cantando,
e o beberei como vinho, e o usarei como vestimenta. Na aurora, o amor me acordará e me conduzirá aos prados distantes. Ao meio dia, conduzir-me-á à sombra das árvores
onde me protegerei do sol como os pássaros. Ao entardecer conduzir-me-á ao poente,
onde ouvirei a melodia da natureza despedindo-se da luz,
e contemplarei as sombras da quietude adejando no espaço. À noite, o amor abraçar-me-á, e sonharei com os mundos superiores
onde moram as almas dos enamorados e dos poetas. Na primavera, andarei com o amor, lado a lado, e cantaremos juntos entre as colinas;
e seguiremos as pegadas da vida, que são as violetas e as margaridas;
e beberemos a água da chuva, acumulada nos poços, em taças feitas de narciso e lírios. No verão, deitar-me-ei ao lado do amor sobre camas feitas com feixes de espigas,
tendo o firmamento por cobertor e a lua e as estrelas por companheiras. No outono, irei com o amor aos vinhedos e nos sentaremos no lagar,
e contemplaremos as árvores se despindo das suas vestimentas douradas
e os bandos de aves migratórias voando para as costas do mar. No inverno, sentar-me-ei com o amor diante da lareira e conversaremos
sobre os acontecimentos dos séculos e os anais das nações e povos. O amor será meu tutor na juventude,
meu apoio na maturidade,
e meu consolo na velhice. O amor permanecerá comigo até o fim da vida,
até que a morte chegue,
e a mão de Deus nos reuna de novo.


{Julho 15, 2007}   O Poeta – Khalil Gibran

O Poeta 

Sou um estrangeiro nesse mundo.
Sou um estrangeiro para minha alma. Quando minha língua fala, meu ouvido estranha-lhe a voz. Quando meu Eu interior ri ou chora, ou se entusiasma, ou treme, meu outro Eu estranha o que ouve e vê, e minha alma interroga minha alma. Mas permaneço desconhecido e oculto, velado pelo nevoeiro, envolto no silêncio.
            Quando caminho nas ruas da cidade, os meninos me seguem gritando: “Eis o cego, demos-lhe um cajado que o ajude.” Fujo deles. Mas encontro outro grupo de moças que me seguram pelas abas da roupa, dizendo: “É surdo como a pedra. Enchamos seus ouvidos com canções de amor e desejo.” Deixo-as correndo. Depois, encontro um grupo de homens que me cercam, dizendo: “É mudo como um túmulo, vamos endireitar-lhe a língua.” Fujo deles com medo. E encontro um grupo de anciãos que apontam para mim com dedos trêmulos, dizendo: “É um louco que perdeu a razão ao freqüentar as fadas e os feiticeiros.”            Sou um estrangeiro e já percorri o mundo do Oriente ao Ocidente sem encontrar minha terra natal, nem quem me conheça ou se lembre de mim.            Idéias estranhas atormentam minha mente, e inclinações diversas, perturbadoras, alegres, dolorosas, agradáveis. À meia-noite, assaltam-me fantasmas de tempos idos. E almas de nações esquecidas me fitam. Interrogo-as, recebendo por toda resposta um sorriso. Quando procuro segura-las, fogem de mim e desvanecem-se como fumaça.            Sou um estrangeiro e não há no mundo quem conheça uma única palavra do idioma de minha alma…            E as aves do céu voam, pousam, cantam, gorgeiam e depois param, abrem as asas e viram mulheres nuas, de cabelos soltos e pescoços esticados. E olham para mim com paixão e sorriem com sensualidade. E estendem suas mãos brancas e perfumadas. Mas, de repente, estremecem e somem como nuvens, deixando o eco de risos irônicos.            Sou um poeta que põe em prosa o que a vida põe em versos, e em versos o que a vida põe em prosa. Por isto, permanecerei um estrangeiro até que a morte me rapte e me leve para minha pátria.(Extraído de “Temporais”)



etc.